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Adeuses: uma boa vizinhança vale mais do que o superávit de um país inteiro

  • Foto do escritor: João Rosa de Castro
    João Rosa de Castro
  • 4 de fev.
  • 2 min de leitura

É um belo livro este Adeuses; traz imagens inusitadas e versos apetecíveis para ficar olhando com muito interesse.

Maria Ferreira Silva parece ser uma mulher peculiar; não é a femme fatale, também não é uma mulher ingênua. Deve ser dessas mulheres católicas que, apesar de preferir dormir, como considerava Max Weber, é também boa de garfo. Só não se pode em nenhum momento dizer que é uma mulher igual às outras. Sua presença deve causar certo impacto, disso o leitor pode estar certo. Mesmo assim, Aurora insiste em dizer adeus.

É a excentricidade da obra de João Rosa: o futuro como uma grande perspectiva, que é cheia da grande esperança, que nunca será indigente como o de muitos pensadores. Aqui está Prata, um poema para otimistas. Apesar (ou justamente em virtude) de todo esse otimismo, o eu-lírico insiste em dizer adeus.

Até que eu me transforme no herói que eu mesmo procuro. Assim termina o poema Heróis, no qual a persona fala de loucura com bons olhos. Mas é uma loucura de mau gosto falar da loucura com bons olhos. A lucidez sempre há de ser o que se arranca da árvore da vida com unhas e dentes. Este eu-lírico quer a loucura e por isto já está fora do mundo e persiste em dizer adeus.

No eu-lírico deste poema, Para Conquistar Rosa, João Castro injetou a noção de vida como sendo o que Freud designou como impulso de vida e impulso de morte. Mas isto já era tão óbvio na época do pai da psicanálise; desde sempre foi assim; antes mesmo da respiração que é tire as mãos de mim, põe as mãos em mim; sim e não, dentro e fora, etc.

Já nesta Rua dos Répteis, ele correu o risco de generalizar e colocar todos os moradores de um determinado lugar como seres rastejantes e infectos. Vê lá:

 

RUA DOS RÉPTEIS

    (ao Léo)

 

Lá está a rua cercada,

Onde moram os répteis.

Cada família que a ocupa

Passa nas outras ruas

Com um véu de vergonha.

É tudo um passado remoto

Que num aceno se torna presente.

Um que vai ao mais proscrito,

Outra que vai ao Japão,

Um vai à encruzilhada,

Outra se perde nos becos.

Não passe na rua cercada:

Quem passa descendo

No fim fica sem alma.

Quem passa subindo,

Na avenida cria calos.

Não pense que são casas

O que se vê depois das calçadas.

São castelos e palácios

Que se confrontam eternos

E crescem entre si.

Esqueça a rua cercada.

Esqueça a rua dos répteis!

 

In: CASTRO, João Rosa de. Adeuses. São Paulo.

 
 
 

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