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Fogo Fátuo: Tripalium Aposentado

Desconfiamos, se é que compreendemos bem aquela lição do filósofo, de que se não fosse pela reforma às avessas prenunciada com a tradução da bíblia para o vernáculo dos bárbaros, o Renascimento teria logrado manter ainda hoje o “trabalho” como algo importantíssimo em que se pudesse investir.

Há espécies de formigas (Polyergus Rufescens e Formica Sanguinea) que se dividem entre rainhas e escravas.

As formigas senhoras não movem uma palha. Sucumbem à morte caso as escravas não lhes levem alimento à boca.

As escravas, por algum instinto de conservação da espécie ou o que valha, ou por se enganarem em colônias que não são as suas, se movimentam para alimentar as formigas rainhas.

De modo que, no mundo delas, a escravidão é legítima. Talvez falte capacidade à Polyergus de obter seu próprio alimento, o que é possível para a Formica. Ou se a Formica Sanguinea soubesse onde está ou que está fora de seu lugar, talvez não fosse possível sequer falar em escravidão de formigas.

Enfim, isto ajuda a meditar sobre o trabalho. Algumas pessoas não têm mesmo capacidade para ele. Lembre-se a gente de que dizem as más línguas ser impossível curar, ensinar e governar: justamente os trabalhos mais importantes para crianças e idosos, que dificilmente seriam tratados de maneira adequada pela tecnologia pura e simples, como para a maioria das outras atividades e faixas etárias.

Há alguém que não queira se curar? Sim. Principalmente os que não se consideram doentes. Há quem não queira ser ensinado, ser educado? Sim. Os que não têm afinidade com o professor, interesse pela matéria ensinada ou que pensam já saberem tudo. Há quem não queira ter sua vida governada, administrada? Sim. Os que não confiam em quem governa.

O filósofo dizia que “o trabalho desonra”; e pelo mesmo viés, cada vez mais as pessoas buscam honra, distinção, diferenciação, reconhecimento, privilégios, prerrogativas, regalias, etc. Sendo assim, a tendência é a de cada vez mais fugirmos do que se chama hoje “trabalho”.

É que o trabalho é uma violência contra a natureza; qualquer que seja seu traço, ele interfere no andamento normal da vida, senão vejamos: se alguém plantar ou comprar o que se plantou, estará onerando ou desqualificando a terra ou a natureza; se caçar ou consumir o que se caçou, poderá prejudicar o ecossistema; se usar a língua para escrever ou para falar poderá propiciar a estafa, corromper a língua, e assim por diante para tudo quanto se possa imaginar do que seja remunerado e precisa ser para manter mais um cúmplice.

Não dará conta de toda essa massa de tempo de concentração e atenção a tecnologia sem humanidade, sem intuição, ou ainda, sem reflexão humana da qualidade mais chã possível: a observação atenta à sabedoria provecta, que nos lembra como são as coisas que nunca deixarão de ser; e das crianças, que falam mais instintivamente e dão pistas para o que nos reserva o futuro e sobre as outras coisas que mudarão.

Em suma, o trabalho é uma violência necessária tanto contra a natureza como contra a humanidade por tudo que traz de economia de tempo e espaço, possibilidade de troca, sociabilidade, sentimento de utilidade, terapia, etc. Mas é como a bebida alcoólica, tem de ser feito com “moderação”.

Ao menos em relação aos livres-trabalhadores, que não são masoquistas e que trabalham em silêncio, isto é: sem vangloriar o trabalho, é mister aposentar um pouco o tripalium para que a atividade possa estar sempre vinculada à produtividade. Ou, se preferirdes, usai-o apenas para os supostos “trabalhadores-forçados”, que são a maioria!

In: CASTRO, João Rosa de. Fogo Fátuo. São Paulo: Autopublicação, 2024. Disponível em <www.pedradetoque.com>.

 

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