Oficina de Ficção: Tipos e Caracteres
- João Rosa de Castro
- 11 de mar.
- 3 min de leitura

Rodrigo já apresentara Daniela a Lia e a Valéria. Mas não teria ficado contente se não a ostentasse também a Élcio, que agora estava distante, e, sobretudo, a Leonardo, tão próximo dali e tão próximo de sua alma.
Era noitinha. As janelas da casa estavam fechadas quando Rodrigo tocou a campainha. Leonardo gritou lá de dentro: — Quem é?! Já vai! — Apareceu ao portão com um sorriso seco. Não estava muito disposto a receber ninguém.
Ainda mais a amada de Rodrigo, tão amigo seu, que precisou se afastar por uns tempos por conta do namoro. Era sempre assim. Era só começar a namorar que as noitadas, os porres, as brigas homéricas, tudo silenciava com a ausência de Rodrigo. E o mais prejudicado era Leonardo, pois, diferentemente dele, os demais ficavam fazendo panelinha e rindo de coisas corriqueiras. Quando Rodrigo estava presente, os dois conseguiam conduzir as conversas para o mais profundo, o que era impossível fazer no grupo.
— Tudo bem? — Disse ele, a fitar Daniela, sem saliva na boca.
— Até que enfim vim te conhecer pessoalmente; de nome já sei muito sobre você de tanto que o Rodrigo fala.
— Espero que ele fale bem de mim.
— Você que pensa, Léo, eu faço a sua caveira pra ela. — Disse Rodrigo rindo desafiador no afã de esconder o constrangimento por que passava.
— Vamos entrando, Rodrigo. Vai ficar aí parado? Você já me conhece. Sabe que eu não tenho cerimônias com você. — E virando-se para Daniela, justifica: — Desculpa, Daniela, entra.
— É que faz tanto tempo que não venho aqui. — Rodrigo apreciava os modos decorativos de Leonardo. Os vários presentes que ele mesmo trouxera de algumas viagens pelo Brasil estavam devidamente expostos nas paredes. Mas não só. Havia também uma estante com a enciclopédia, livros muito bem arranjados, combinados com os aparelhos de som e a CPU do computador disposta junto dos livros. Havia muita harmonia na sala de Leonardo, que tanto tinha um quadro com o pôr do sol, como o próprio pôr do sol fazia seus espetáculos diários pela janela que Rodrigo adorava contemplar quando ia lá às tardes. Rodrigo estava perdido no meio da sala.
Todos entraram. Rodrigo foi se espreguiçando no sofá, entre as almofadas amontoadas, e Daniela sentou ao seu lado, em silêncio.
Leonardo, meio desconcertado, preferiu pegar uma cadeira da mesa e sentar-se diante dos dois. Puxou assunto:
— Então, fala, gente, fala, Rodrigo, como vai? — tentando disfarçar sua opinião categórica sobre as relações amorosas, que achava patéticas, e o amigo conhecia-a muito bem.
— Ah. Estamos bem. Passo dois dias no Bixiga com a Dani e dois na Vila Curuçá com meus pais. Todo fim de semana nos divertimos. Vamos ao cinema, ao teatro, ao parque. Comemos feitos dois esfaimados. — Ao ouvir isto, Leonardo olhou para os biscoitos sobre a mesa e não percebeu que Daniela corou e puxou para seu colo a mão esquerda de Rodrigo. É que, se Rodrigo fosse um magricelas empalamado, ainda que pouco feio, Daniela, embora escondesse sua beleza, não deixava de parecer rechonchuda. Tinha olhos grandes e castanhos. Alguns diziam que eram de ressaca como os de Capitu. Outros diziam que as filhas do casal seriam as superpoderosas, pois os olhos de Rodrigo também se destacavam em seu rosto. Daniela ostentava com deleite o busto e os ombros sardentos que tanto excitavam Rodrigo. Era branca, mas nem tanto. O sol do litoral fizera despontar e concentrar-se em sua pele toda a escassa pigmentação que possuía. O nariz afilado condizia com os lábios finos que sabiam os de Rodrigo — espessos. Na verdade, seu único defeito eram os dois incisivos superiores centrais separados, que, segundo Valéria cochichara em sua casa para Rodrigo, denunciavam falsidade. Mas, afora os olhos avantajados de ambos, eles formavam um belo casal. E o fato parecia preocupar Leonardo, que, observando-os detidamente, passou a pensar que perderia o amigo de vez para o seio do matrimônio.
In: CASTRO, João Rosa de. Oficina de Ficção. São Paulo: Pedra de Toque, 2019. Disponível em <www.pedradetoque.com>.
コメント